Lá fora a rua anoitecida está deserta, carros passam a toda a velocidade e deixam um rasto de sabor a borracha quente, gaivotas berram alto do cimo de um telhado perto da minha janela. As aves deprimidas queixam-se de um tragédia que aconteceu ali ao lado, há séculos atrás – e eu queixo-me da humanidade, das emoções infantis, da medíocridade mesquinha, das antipatias quotidianas, de tudo e de nada, do barulho da televisão que insiste em continuar ligada e dos irritantes motores metálicos dos automóveis que massacram propositadamente os meus nervos.
Os berros estridentes aumentam cada vez mais e duvido agora se serão mesmo gaivotas, porque o choro aflitivo parece-se mesmo com o de crianças. Prefiro pensar que são aves, fugidas de um mar demasiado revolto, procurando sossego no local errado e protestando alto, com a coragem que não tenho, do egoísmo feroz de todos os homens. Indiferentes, carnívoros e furiosos, os carros insistem no ruído torturante que chega até mim pela janela que me recuso a fechar.
Deitados na minha cómoda, um aglomerado de livros espera que os acabe, mas resisto à tentação de ler sobre tudo aquilo que conheço bem demais. A miséria, o sofrimento e a culpa são temas que povoam a minha mente durante os segundos que passo acordado e as horas que tento dormir. Porque me perseguem estes escritores malditos? Do norte e do sul, do oeste e do leste, vêm todos ver a minha carne a envelhecer lentamente e um espírito apodrecido, que julgo também ser meu, a clamar por piedade aos deuses de ontem, hoje e sempre.
A minha mente está cansada, mas pior está o meu espírito moribundo. Tenho cada vez menos esperança que seja curado num toque milagroso, mas a teimosia masoquista da minha alma não deixa que tudo se vá. A paz vai ter de ficar para outro dia. Hoje continuarei a chorar, em silêncio, mil lágrimas de uma tristeza sem nome. Não me lembro como tudo começou, mas deve ter estado aqui desde sempre, porque não recordo nada antes. Gostava de ter uma amnésia que principiasse agora, neste instante, apagando as más memórias, as frustrações antigas, os desejos recalcados, os sonhos desfeitos – e esta vontade primordial de morrer.
Agosto 2004 ©






